Saudade


E aquilo que um dia foi, certamente com toda a sua grandiosidade, uma nascente de certezas e de sentimentos à flor da pele, são agora densas cinzas de um devastador incêndio, que sem dó nem piedade, tudo consumiu no seu caminho. E antes já foram verdes os prados, pintados de vermelhos hibiscos, salpicados de frágeis violetas lilases e lírios azuis, que beijavam ternamente montes e serras, imponentes, rasgando o turquesa de um mar sereno. Nada resta desses recantos deliciosamente encontrados; entusiasticamente partilhados, revestidos agora de névoa espessa e opaca, ocultando o que um dia roubava as palavras e agora ensurdece com o silêncio em que mergulham.
E houve promessas de regressos, houve certezas de um partir para pouco depois voltar; houve brilho sentido, por dentro vivido e bem dentro mantido, para em promessa ser esplendorosamente dividido. E selado, gravado, para jamais ser esquecido. Mas a névoa espessa e opaca, de braços firmes com as densas cinzas, cobre impiedosamente, tudo o que um dia foi nascente, tudo o que um dia floresceu e brilhou, tudo o que um dia foi vivido, por dentro sentido e em promessa dividido…
Porque a promessa se quebrou e tudo foi esquecido… E a lembrança apenas vive, resistente ao fogo que se lhe tentou atravessar, e à névoa que muito se esforçou para se adensar, na saudade, daquele que sabe, daquele que se lembra, daquele que não esquece, mas que também não vive de memórias… Vive somente nessa saudade, da lembrança de uma promessa quebrada e que tudo a tornou esquecida… menos em si mesmo…Copyright Oficial 2016 ©

 

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