O Relógio


É como se me faltasse algo, mas não me sentisse incompleta. Como se me faltasse o ar que preciso para viver, de cada vez que respiro uma golfada profunda. É como se estivesse a cair desamparada, sem sequer sair do chão. Como se o meu nome alguém desesperadamente chamasse e no momento em que me volto para ver, ninguém estivesse por perto para me falar.
Tic tac, tic tac, tic tac. E o relógio com escárnio zomba de mim, pendurado naquela parede, como um abutre, pacientemente aguardando o momento em que me rendo à loucura e desisto de lutar, desisto de tentar, vencida pelo cansaço, tomada por aquela repetição constante de uma hora atrás da outra, dias a fio: Tic tac, tic tac, tic tac. Porque ele conhece bem esta minha vivência inconstante, desta falta de algo que desconheço precisar ter; deste ar que me foge, quando dele inspiro por completo; desta queda livre em pleno solo seguro; deste chamamento desesperado, a ninguém reclamado. Ele sabe que foi desde que partiste, ou que de ti parti eu, pois já não me lembro quem se ausentou de quem, que toda a minha vivência se tornou assim: uma projecção de um filme ao qual assisto sem dele fazer parte. Escrevo o argumento, dirijo a cena, mas não faço parte do elenco uni existencial, que dele é composto.
E lembro-me que já mais personagens existiram noutros filmes antes projectados. Já outros argumentos brilhantemente foram escritos e, majestosamente representados. Mas não me recordo se deles ri ou se chorei, se era completamente preenchida, ou solitariamente esquecida. E no entanto persistem. As memórias de canções profundamente ouvidas; de risos e sorrisos, mais que partilhados, na essência impregnados. De olhares silenciosos audivelmente ternos. E de palavras. Muitas palavras. Que nos secavam a boca até que beijos molhados as calassem.
As memórias persistem, nesses filmes antes projectados, mas que na demência que agora subsisto, me rendo à loucura, me rendo ao escárnio que aquele relógio pendurado na parede, teima em manter vivo. Rendo-me à evidência de que no momento em partiste, ou que de ti parti eu, ter sido o momento em que perdi a capacidade de sentir Amor….

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