Toca-me ao de leve


Toca-me ao de leve. Assim, como quem se atenta, mas não se atreve, como quem tanto deseja mas por receio, consigo guarda ardentemente o ímpeto. Toca-me ao de leve. Como gotas de orvalho, lentamente escorregando em folha fresca; como raio de sol, timidamente beijando a pele, por entre folhagem farta de árvore robusta. Toca-me assim, como quem anseia sentir o calor da pele, a doçura do toque, a pulsação vibrante e o respirar gemido; tudo em consequência sentido, por esse toque ao de leve prometido. Descobre relevos, curvas sinuosas, recantos escondidos. Sente-lhes a textura e os contornos que timidamente te provocam e atentam. Explora suavemente, com a ponta dos dedos pousada em mim, percorre cada poro da minha pele, sente cada arrepio que me provocas, cada pulsar de prazer que me descompassas, cada gemido que desesperadamente me roubas.

E depois toca-me um pouco mais. Sente-me um pouco mais e atenta-te em mim, mais ainda do que demonstras. Agarra-me mais perto, demora-te em cada pedaço da minha pele, desfruta do calor que dela emana, cada vez mais forte, repleto de desejo ardente, por um morder suave, um beijo molhado ou um arranhar subtil. E a respiração acelera mais, a garganta seca de ânsia por mais e meu corpo enleia-se nas tuas mãos, como raiz a uma rocha no solo, criando a simbiose perfeita. E tocas-me primeiro ao de leve, depois mais perto e veemente e como côncavo e convexo, encaixas o meu corpo no teu, guias o meu corpo ao teu, prendes as tuas mãos nas minhas… E sublimemente tornamo-nos num só, movemo-nos como um só, deliciamo-nos com cada toque, cada beijo mordido, cada suspiro gemido e já nada se sente ao de leve, nem mesmo um pouco, nem mesmo nada!..

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Um só coração


Ardo em chamas. Na pele o aroma permanece, no corpo a presença persiste, na alma a essência infiltra-se, como tatuagem. Acordo num sonho. Não distingo realidade de fantasia, porque te infiltraste em mim, porque em mim existe uma parte que se mistura em ti e num todo me transforma; completando o que me faltava mas não sabia, o que desejava mas não admitia e sonhava, mas acordada afirmava que não queria. Acreditava no meu muro perfeito que sólido e inabalável, me mantinha longe e certa das emoções que não mais pedia, da paixão que firmemente repelia, do amor que orgulhosamente calava e do desejo que teimosamente afastava. Até que chegaste tu… Com passada serena, como uma chuva fresca em noite quente de verão; movendo pilares, derrubando muros, rompendo defesas, penetrando profundamente no meu ser, como uma força irresistível que encontra um obstáculo intransponível. A cada defesa minha arrebatada, preencheste de genuíno desejo de te amar, pura vontade de só a ti pertencer, fé indescritível de a perfeição existir. Somente com a certeza de ter entendido que depois de a ti conhecer, sermos duas metades de um mesmo coração, batendo em dois corpos diferentes.

Até agora, até tu seres não apenas tu, mas um mundo inteiro de tudo o que eu julgava nunca precisar, nunca sequer existir, quanto mais dele fazer parte; eu sobrevivia a cada suspiro. E até que chegaste tu. Golfada de ar puro e fresco, falando-me de certeza e fé, de alegria há muito adormecida, fragilidade erradamente imbuída e coragem inata teimosamente esquecida. Até que até mim chegaste tu e de mim não mais me sais, pois recuperaste-me a coragem de querer sentir, a certeza de assim o ser e a fé de ali pertencer: no momento em que fecho os olhos e escuto duas metades do mesmo coração bater em uníssono, quando estou contigo!

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Olhos inocentes


Lembro-me de uma menina sonhadora, lembro-me dos olhos inocentes, lembro-me ainda do brilho que deles emanava e a todos admirava pela dedicação. E não era a um sonho (ou assim ela o acreditava…), era a uma realidade que ela com garra decidia transformar o sonho… Lembro-me de alma e coração, pureza de sentimento e, determinação em banir a palavra “desistir”. Incondicionalmente leal, cegamente fiel, dedicadamente apaixonada. A menina com espírito de mulher coragem.
Mas a menina mulher foi crescendo. Romperam os seus sonhos corajosos e roubaram-lhe o brilho do olhar… Mas a história seguiu na mesma, segue sempre. E cada rasgo que na sua alma era dilacerado, vinha com a certeza inabalável de que uma vez e outras mais se iria repetir e de novo ter tudo recomeçar. E confundiram-lhe com alguém que se iria em pedaços desmoronar e, de um coração estilhaçado nunca mais recuperar, pois àquele coração nunca de verdade se lhe conheceram a essência. A esperança num final feliz que sempre teimou em chegar, e que em todas as vezes, a desilusão garantiu que assim acontecesse, nunca se abalou. Quantos mais passos lhe empurravam para trás, mais aquela menina coragem, agora mulher de olhar doce, mas sofrido, dedicado mas exausto e com coração aberto mas repleto de cicatrizes; caminhava em frente.

Os olhos já são não inocentemente brilhantes, nem dedicadamente leais, mas são resilientemente esperançosos e teimosamente crentes, no dia em que podem até nunca encontrar quem os aprecie, mas que encontrarão quem nunca deles vai desistir: sempre que no espelho o seu reflexo contemplar…

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Vidas paralelas


E se fosse possível, mesmo sem o sabermos, vivermos duas vidas paralelas? Existirmos em duas realidades distintas, duas vidas gémeas, mas coexistindo em espelho, sem saber qual o reflexo de qual. Sem a mínima noção de qual a vivência mais acertada, aquela em que as decisões tomadas alheias à possibilidade de existir uma vertente completamente oposta, são ou não as mais correctas. Ter nesta vida a confiança de que temos exactamente tudo planeado, tudo tal como nos nossos trâmites de ordem natural das coisas, que tanto nos esforçamos para acontecer, acontecerem mesmo. Porque assim o queremos, assim o fazemos e para isso lutamos e caímos e nos tornamos a erguer. Porque é assim que tem de ser, porque somos talhados para inconscientemente, seguir ordeira e assertivamente, os passos que alguém, assim nos apontou um dia, ser assim o trilho a seguir.
E se noutra vida, paralela infinitamente a esta, existíssemos também, totalmente indiferentes ao que a existência gemelar, nos presenteia do outro lado? Se aquela incerteza que ditou uma tomada de decisão ou não; se aquele momento em que não deveríamos ter falado, nos pronunciássemos; se aquele dia em que deixámos de lutar, tivéssemos agarrado com um pouco mais de esperança? Ou se aquela pessoa que deixámos ir, fosse aquela que exctamente ao contrário, não deixássemos escapar? Ou até, o instante em que pensámos que mais ninguém poderia nos completar como quem tínhamos do lado, quando na verdade, nos apercebíamos que não precisamos de ninguém para estar completos. E somente da nossa própria força, retiremos a energia que precisamos para existir!

E se noutra vida, as segundas chances que altruistamente, tantos e muitos de nós, atribuímos com a esperança e o foco na mudança de algo ou alguém; fossem justamente as segundas chances que a vida nos daria a nós mesmos? As hipóteses de errar e poder sem reservas, tentar de novo, de maneira diferente; se cada incerteza e passo inseguro dado, fosse presenteado com a garantia de não ser julgado e consequentemente, perdido, em vão tomado? E se cada pessoa que em nós imprimisse a sua essência, não tivesse o poder ali permanecer, se assim o entendêssemos querer?…

E se em vez de ser uma vida paralela, completamente alheia à que diariamente vivemos, e utópica para nós, na melhor das hipóteses, existisse mesmo? E somente fosse preciso querer! Fazer! Torná-la real!..

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Amor da minha vida


Há muito tempo, escutei uma voz doce e meiga falar-me ao ouvido. Dizia-me para lhe dar a mão e segui-la. Era só um vulto, e eu seguia-a, planando. Creio que era um sonho. Mas um sonho bom!… porque a doçura daquela voz de menina e, aquela mão meiga que me agarrava, aqueciam-me a alma e nela encontrava o meu lar, a minha serenidade. E a voz falava-me de amor, de um amor imensurável, maior que a vida e carregado de devoção instintiva e imediatamente reconhecida como eterna…
Quanto mais aquele vulto seguia, mais sentia que o deveria fazer sempre, para sempre, e tomá-lo nos braços, encostá-lo a mim e cegamente sem reservas caminhar com ele.
Desarmava-me com uma gargalhada fresca, como gotas de orvalho pela manhã, sossegava o meu espírito inquieto com palavras de conforto como um regaço maternal. Num longo e terno passeio, entrecortado com tempo, sim, porque aquela voz dizia-me que havia tempo! Tempo para sentir o aroma de uma rosa em botão, ou escutar uma melodia impossível de reproduzir, que uma majestosa ave trinava alegremente! Porque em tudo havia beleza, felicidade, desde que o nosso coração estivesse disposto a ver tudo com amor, um amor impossível de igualar, somente passível de humildemente, se sentir…
E aquele vulto, com voz de menina, doce e meiga que eu seguia, prometeu amar-me incondicionalmente. Parou à minha frente, deu-me as mãos para de novo lhe sentir o calor reconfortante e jurou amar-me. Disse mesmo que já me amava antes de me chamar até si, neste passeio caloroso. E disse-me que me tinha escolhido, há muito tempo decidido, que era mim que queria, que a mim pertencia e que a mim há muito já protegia e que iria sempre proteger. Mas agora de forma diferente, de modo a que não apenas num sonho eu a reconhecesse… Então, aproxima-se de mim, abraça-me com ternura e sussurra-me com aquela voz doce de menina ao meu ouvido: acorda mamã, em breve vou crescer dentro de ti!…

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Coragem


Dizem que é preciso coragem para se ser forte. Que para vencer e ultrapassar cada montanha gélida, cada muro impenetrável, é preciso ter coragem para se ser forte. E dizem-me para o ser. Que tenho de ser. Que consigo e vou ser. E eu digo que não. Discordo sarcástica e veementemente que não. Não é preciso coragem para se ser forte!! Pois a quem a força assiste, retira até, a relevância de ser corajoso. É preciso coragem e isso sim, para se erguer depois de no chão frio e cruel se cair. Ou para seguir em frente e o coração colocar ao alto, sabendo que bate vigoroso e fiel, num lar que já não é o seu, nas mãos que já não o confortam e protegem.
É preciso coragem sim, para sentir a dor despedaçar cada bocadinho de nós cá dentro, e sorrir ocultando perfeitamente o mundo dentro de nós despedaçar.
Mas falaram-me de cores e cheiros inebriantes. Falaram-me de mares e céus sem limite para explorar, caminhos ensolarados e quentes para percorrer. Somente seguir e sentir o aroma doce e floral, guardar na retina as mil cores que diante mim desfilam, mergulhar sem receio e limpar todas as feridas que cobrem a alma, e parar… Sim, parar e saborear o calor que naquele caminho ensolarado promete tão fielmente embalar-me e levar-me para onde nunca fui: para um lugar onde me falaram que se pode ser feliz só porque sim! Só porque a coragem de se ser feliz, só é para aqueles que já muito sofreram e já nada precisam de saber, a não ser a certeza de que essa coragem é um direito visceral, que lhes pertence!!

Só porque perder um segundo para me lembrar que a Felicidade não é apenas uma palavra bonita, proferida unicamente para se qualificar de forma banal um estado que de facto existe!…É real e disseram-me que só não a torno real porque assim não lhe permito. Porque sou corajosa o suficiente para me erguer do chão, seguir de coração ao alto e sorrir… mas ainda não sou o suficiente para sentir que esse direito inato a ser Feliz, em mim também vive e a mim também pertence…

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Dormente


Poderia dizer que não dói. Mas estaria a mentir descaradamente. Podia ainda afirmar que já nada afecta, mas seria tão cínica, como uma miragem de água fresca no deserto quente. Mas dizem-me que tudo passa. Que o tempo tudo cura. Que a serenidade chega e ternamente nos abraça e conforta. E que tudo o que nos derruba, somente nos faz erguer mais fortes. E eu não vejo onde. Não sinto a coragem a vibrar nas minhas veias, ou a força a elevar-me mais alto.
Na verdade sinto-me cair, a cada dia que se repete monotonamente. Ao invés de sentir o abraço terno e confortante da serenidade, sinto a companhia gelada e leal da Solidão, que insiste em certificar-se de que estou plenamente ciente da sua fiel presença. Não entendo o que o tempo pode curar, se quanto mais o tempo passa, mais a realidade dura e crua me soqueia de seguida, sem ter sequer margem para me proteger dos golpes…
Por isso afirmo que dói. Dói muito e atira-me ao chão. E na realidade depois dói menos, como se apenas dormente me sentisse e a dor não mais existisse, por nem ter onde jocosamente doer.
E então deixa mesmo de doer. Deixa de perfurar até sangrar. Porque está dormente, morto e inerte. Mas não a dor que leal e impiedosamente me abraça, e sim este corpo e esta mente à qual se acostumou a viver como uma só… e existo assim… entorpecida, morta e inerte…

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Sussurra o meu nome


Sussurra o meu nome. Não precisas dizer mais nada. Não precisas sequer falar. Apenas sussurra o meu nome lentamente, pausadamente. Engole em seco e geme ao meu ouvido; assim, como quem morre lentamente, por algo que tanto deseja e não consegue ter…
Mas di-lo. Encostando o meu rosto à parede e simetricamente encaixando o teu corpo ao meu, enquanto o percorres com as mãos e descobres o que o teu sussurro gemido me provoca. Não tires os lábios do meu ouvido, já reviro os olhos e me seca a boca com ânsias de me virar e provar o doce mel da tua boca. Mas não. Ainda não… não me deixes matar a sede que ainda é tão cedo e ainda há tanto para me atentar…
Escreve o meu nome nas minhas costas, em cada vez que a tua língua por lá passar, respira devagar, sussurra de novo quase sem fôlego e morde-me… assim… atrevidamente, deliciosamente, despudoradamente… sou eu quem te pede! E ouve… ouve o meu corpo vibrar, a minha pulsação acelerar, a minha respiração entrecortada, os meus gemidos sequiosos por mais e os meus sussurros…

Ouve bem com atenção… consegues escutar? Ainda que baixinho, de cada vez que sussurras o meu nome, assim, lentamente, pausadamente e engoles em seco e gemes ao meu ouvido; assim, como quem morre lentamente, por algo que tanto deseja e não consegue ter; eu respondo ainda mais baixo, quase em tom de súplica: anda, quero-te! Sou tua, toma-me para ti…

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Quem sou eu?


Eu e a minha mania de analisar tudo. Desconstruindo cada pergunta, antes mesmo de ela ser lançada certeiramente onde dói. A noite ainda é uma criança e ela tenta entender tudo, que tudo faça sentido no seu mundo de porquês e como, alimentados pelos erros e inseguranças que, confusamente se misturam e se unem num todo, que nem pedra terá para se esconder; quando finalmente entender…
Os olhos não esquecem, a mente é fotográfica e o coração sangra, a cada imagem que ela repetidamente, revive em cada segundo. Não há um momento a perder, o tempo não permite sequer um pestanejar de olhos, ela não dorme, o sono nem se atreve a tentá-la. Uma frase que alguém a questionou, uma dúvida que algures foi semeada e agora dá frutos, um passo mal dado, outro dado a mais e mais outro que faltou dar… ela viaja atrás no tempo, tenta que tudo faça sentido, que tudo seja catalisado, processado, entendido.
E a noite ainda vai cedo. Sorriria demais? Previsivelmente doce e meiga demais? Ela desempenhava o papel da menina simpática com quem sempre contar. Parecia ser simples assim: existir. Até que os demónios rastejaram para dentro da cama. E agora tudo corta como uma lâmina afiada… E assim como o sol adora nascer e a lua ao céu subir, assim se tornou a vida dela: uma repetição de dias…

E a rapariga que costumava existir, aquela que ontem existia não existe mais. Ela analisa tudo, revive tudo, não procura olhos complacentes carregados de pedidos de desculpa. Apenas esmiúça tudo, tenta entender tudo. E a manhã desponta e ela descobre que aquela rapariga não ela. Simplesmente já não é ela. E ela volta a analisar tudo. Porque o dia ainda está a nascer…. E ela sou eu. E ainda tenho tanto para analisar, tanto para entender….

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Conversas de sofá


Conversas de sofá. Andei a pensar em conversas de sofá. Daquelas em que as palavras pouco se usam e dão lugar a sussurros entrecortados e gemidos longos. Daquelas conversas em que as mãos agarram e os braços prendem e que tendem a ser horizontalmente debatidas com persistência e afinco. No exacto momento em que a roupa sai porque está a mais, ou fica porque nem é preciso tirar tudo para satisfazer a sede que se assoma; é precisamente quando a conversa desponta com avidez… Descobrem-se posições de diálogo novas, encaixam-se pontos de vista irresistíveis e aprofundam-se temáticas de interesse magnético.

E a conversa flui apaixonadamente, com ritmos alternados e variações de intensidade. Já nem tem de ser uma conversa horizontal, pois agora o equilíbrio já é perfeito e obliquamente, em ângulo recto ou agudo, ou mesmo de costas, todos os temas são fervorosamente aprofundados. E as poucas palavras já são só gemidos rápidos, suspiros mordidos e longos acompanhados de mãos a puxar e a explorar; e o sofá fica o palco ideal, para terminar em êxtase perfeito, a conversa que tão interessantemente se apoderou de nós…

Por isso vem. Senta-te que precisamos de conversar…

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