Quero que me conheças por inteiro. Que não haja virgula ou reticência mal explicada que fique por escrever. Quero que não seja pelo lado doce e meigo que formulas o esboço do que sou e sim pelo lado mais obscuro e que cada um de nós se esforça para manter eufemisado, por entre subterfúgios involuntários de delicadeza genuína, mas mascarada. Decido portanto que não haverá véu delicado que a minha essência cubra com colorido disfarce.
Por isso quero que saibas que sou teimosa, não impertinente e obtusa que a nada dá ouvidos, mas convicta com todas as forças do quanto te amo. E que não desisto facilmente. A tenacidade corre-me nas veias e se decidi que a ti te acompanho, a menos que não mais a minha presença a ti te falte como o ar que respiras, correrei à velocidade do vento, subirei a montanha mais íngreme e cairei do penhasco mais alto, se assim de mim o necessitares.
Mas quero que saibas que sou também impulsiva. Penso muito é verdade, mas por norma, primeiro faço e depois sim penso. E eu sei que nem sempre é bom que o ímpeto vença a racionalidade, mas tenho a estranha convicção de que se em nós reside sempre um animal, primário, moldado aos maneirismos dos seres humanos, então prefiro seguir o que esse instinto primário me diz para fazer, ao invés de o calar com a racionalidade do que é previsivelmente ditado por regras. E o meu diz-me que te devo seguir. Que em ti eu pertenço e que o som da tua voz basta, para o meu espírito naturalmente agitado serenar e de passada lenta e deliciosa, saborear cada brisa que o vento traz, cada raio de sol que beija a minha pele, só porque caminho ao compasso doce do som da tua voz.
Também quero que saibas que sou inquieta. Silenciosamente inquieta. Atormentada por dúvidas, convivendo com fantasmas de feridas nunca saradas e dolorosamente repetidas, como uma espiral infinita… E que por isso me atropelo a mim mesma, na ânsia de finalmente ser tudo o que nunca consegui ser, misturada com a doçura que me fazes sentir, com apenas um olhar meigo e terno pousado em mim. Porque me mostras o rumo, me falas do que há no fim da estrada, desviando-me da indecisão, afastando-me da incerteza. Afirmando que não é na ânsia de tentar fazer certo, que reside o saborear do prazer de chegar ao fim do trilho e sim no deleite da caminhada, a dois bucolicamente partilhada, que sara enfim feridas abertas e sossega a inquietude silenciosa.
E assim, quero que me conheças, na minha grandiosa imperfeição, em toda a sua totalidade, sem eufemismos polidos, mas repleta de uma certeza inabalável: aquilo que sinto por ti!